"Os demônios de Loudun" de Aldous Huxley

13:00


Os demônios de Loudun (1952)
Aldous Huxley
400 páginas
Biblioteca Azul
★ ★ ★ ★  
Devo começar pedindo perdão pelo vacilo, por ter deixado o blog de lado durante o primeiro ano da faculdade. Estamos voltando aos poucos. E obrigada pelos likes apesar de tudo! :)

Em Os demônios de Loudun, o mesmo autor de Admirável Mundo Novo, revisita a França do século XVII e o caso da possessão demoníaca das freiras de Loudun. Pela breve sinopse parece um romance de horror, algo como O Exorcista, mas Loudun é mais como um estudo, uma investigação do caso. A partir de documentos, cartas e outros escritos da época sobre o assunto,  Huxley reconstrói o caso, que resultou no padre Urbain Grandier acusado de pacto com o diabo (pelo qual teria ocorrido a possessão das freiras) torturado e condenado à fogueira por bruxaria.

Ao contrário do que talvez possa parecer, a leitura não é chata (pelo menos não em 95% do livro). O leitor não se sente perdido porque Huxley divide a história das freirinhas em partes romanceadas, e antes de introduzir fatos novos situa o leitor no contexto da época. Além de trazer a filosofia e psicologia pra conversa, sempre mostrando os aspectos humanos da coisa toda.
pacto2
Urbain Grandier, executado por bruxaria

Por falar em "aspectos humanos", essa é a melhor parte. Possessões demoníacas e exorcismos não só estão em filmes toscos de terror, como muitos acreditam nisso ainda hoje. Tantas são as religiões que pregam isso como verdade que muitas vezes não questionamos esses casos. Em Loudun Huxley disseca todo o caso da possessão das freiras, onde tudo começou, suas origens, o cenário político (e religioso que na época dava quase no mesmo) e social da época e fica claro que, ao contrário do que você pode encontrar em sites bizarros, nada houve de sobrenatural. Os demônios que atormentaram as irmãs, assim como elas, eram bastante humanos. A condenação do padre Grandier foi conveniente aos poderosos e a ignorância, os impedimentos da vida religiosa e a crueldade foram alguns dos verdadeiros demônios.

Acho que o parágrafo acima não pode ser considerado spoiler até porque são fatos reais. E assim como nos livros do Stephen King, em Os demônios de Loudun o importante não é o desfecho, mas a jornada até lá. E essa é incrível, garanto. Além de tudo, o apêndice que fala bastante sobre delírios de massa é um caso à parte, vem bem a calhar em épocas de manifestações sem rumo.

O interessante também é pensar nas supostas possessões que acontecem hoje em diversas igrejas. Como é possível que séculos depois nós continuemos caindo nos mesmos truques? Por que muitos de nós não questionamos as motivações e conveniências dessas possessões? Acho que as respostas são as mesmas de séculos atrás e temo que isso não mude nas próximas centenas de anos.

"A religião é o ópio do povo."
- Karl Marx

Sou leiga em filosofia, antropologia e todas essas 'ias, e fico até com vergonha de comentar um livro desses, medo de falar bobagem. Mas, além de não escrever no blog há muito tempo, esse eu não podia deixar passar. Recomendo muito a leitura e a reflexão.

P.S.: Agora, que maravilhosidade é essa das capas novas dos livros do Huxley, hein? Wow. Li uma edição antiga da Biblioteca Pública, com uma capa substituta e com o nome do autor errado, mas tinha que falar sobre as capas novas, haha.

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